quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Meu Guarda-Chuva Furado


  Eu poderia colocar o guarda-chuva embaixo de você ou te proteger do passar dos carros pelas poças de água na calçada, mas será que você interpretaria errado essas minhas ações mesmo que não houvesse de minha boca o consenso de palavras? Pensar bem, uma capa de chuva cairia bem em meio a tanta incoerência de nossa relação, assim você estaria protegida das farpas que caem do céu em sua direção. Mas não se engane, nem mesmo o guarda-chuva me protege dessa tempestade de verdades que corrói lentamente meu corpo. Olha só, ele já está furado mesmo! O que mais eu posso fazer além de correr pro abrigo mais próximo? Lembro que era assim que fazíamos no inverno quando vinha o pairar da água no céu, mas hoje em dia parece distante esse lugar onde eu ou você podemos nos resguardar. Talvez uma cafeteria, lá ao menos eu posso olhar na cara da atendente sem ter medo de ser expulso como fui do último lugar. Quer dizer, quem te expulsa de um local e de novo te convida pra passar mais uma temporada? Seu coração não cansa desse vai e vem?

  Armando Albuquerque

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Doce Inocência

do copo de alumínio de água
doado pela vizinha da esquina
das boladas em meus couros
não tão quentes quanto minha mãe às 22h deixaria

gritaria doce gritaria
de conversas na calçada
minha eterna saudade hei de ter
e o medo do carro preto
que um dia viria a se perder

éramos apenas nós
e quando um dia ousamos em voltar para casa
sequer saberíamos
que aquela noite seria a última 
de nossa doce inocência

Armando Albuquerque

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Um Monstro Atrás da Minha Porta


  Porta trancada, sentinelas entre abertas. Ao medo fiz a promessa de alimentar a dúvida. Olhos se esquivavam lado a lado ao observar de um horizonte que pairava sob uma casa em ruínas, clamando por desabamento. Naquele ponto era impossível desconfiar. A morte, inequívoca e discreta, já estava a me vigiar. Aos meus arredores, limites da companhia expressos no vasto plantio de uma fazenda tornavam tudo uma só dor. A solidão reinava, o céu chorava. Sua angústia era tanta que aos poucos deixou o monstro adentrar rumo a meu lar. Silenciosos passos se concretizavam em direção a minha alma que cada vez mais se preenchia de vazio. Aos primeiros passos o medo. No fim do caminho a indiferença. O destino já havia se traçado antes mesmo de pôr os pés neste deprimente e lastimável mundo. Ao que tudo indica tudo se resumiria a isso, a mais intensa das dores intensas. Por fim, uma maçaneta de porta virando traçava meu destino. Meia porta se abre. Encontro vocês do outro lado.

  Armando Albuquerque

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Última Noite na Terra


  Escrevo essa carta num despejar de lágrimas sabendo que dela será o vasto caminho a perpassar. Em outras palavras, não surpreendente seria caso a ela o destinatário não fosse encontrado. Ao mesmo tempo que em vão não haveria de ser sua escrita pois, em razão do atual momento, toda minha angústia nela se exprime. Em cada letra, cada palavra, cada minunciosa escolha de palavras que resulta na tradução de dores que um dia jamais cogitaria compartilhar. Então que seja de seu conhecimento minha dor. Já não bastam as noites das quais passei em claro cobiçando o doce desejo por tê-la? Já não bastam os mares que nadei em busca do reino perdido? Promessas e mais promessas. Estou farto de dores que persistem em reviver nos momentos de nostalgia de meu dia. Meu cérebro clama pelo desabamento de meu corpo. No fundo sei, sou o meu pior inimigo, e verdade seja dita, dessa batalha não me resta nada a não ser sucumbir aquilo que mais me destrói, aquilo que mais me repreende na vivência amarga do cotidiano simplório. Eu, em minha mais pura essência, sou a bomba relógio que está prestes a explodir, sou o caos que clama por existir, sou o tormento que não há de ir. Sou dor, apenas dor. Nessa última noite na terra vos digo: Desaba-te ó tormento interminável, a você te dou meu corpo e alma. Corpo e alma.

Armando Albuquerque

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Eu Te (M)amo


3 da manhã
teu corpo
palpita
tua alma
estremece
se prende
em amarras
e me enlouquece
te boto no canto
sem muito dizer
na hora do banho
iremos fuder

Armando Albuquerque

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

O Capitão Romance e a Sereia Tormento


no boteco da esquina
na parede da memória
ao som do mar divino
minha dor se desaflora

sob a mesa de skol
se sustenta meu pesar
de um amor incompreendido
de um medo a se soltar

ó alma solta 
que se constrói na vivida noite
de um corpo imerso em exaustão
e que se desfaz no pesar 
de uma alma repleta em solidão

e quando a noite há de cair
seu suspiro lembrarei
das memórias que me deste
delas nunca esquecerei

sou amor em construção
sou esperança ao pé do chão
sou dor apenas dor

Armando Albuquerque

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Sua Voz É Uma Massagem Mental


  22h da noite de um dia qualquer quando meu telefone subitamente tocava junto com as batidas de meu coração. Palpitavam hora a hora até o som da sua doce voz cessar com o silêncio do sono pertinente entre nós dois. Nas conversas, planos limitados pelo tempo espaço traziam à tona meu desejo da ponta dos dedos até outra extremidade qualquer. Seja pela casa, pelo idealizar ser de um futuro belo junto a ti, o tempo despedaça a fé em tudo. O que se mantem, e que por vezes me consome, é o toque ao qual de ti nunca pude sentir, junto a incerteza de saber se ainda sou tão seu quanto antes sei que fui.... Mesmo nos dias de tormento sei que no fim ainda acordarei no meio da madrugada a sua procura em minha cama questionando o que o futuro reserva para essas duas almas perdidas.

Armando Albuquerque

Meu Guarda-Chuva Furado

  Eu poderia colocar o guarda-chuva embaixo de você ou te proteger do passar dos carros pelas poças de água na calçada, mas será...