quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Última Noite na Terra


  Escrevo essa carta num despejar de lágrimas sabendo que dela será o vasto caminho a perpassar. Em outras palavras, não surpreendente seria caso a ela o destinatário não fosse encontrado. Ao mesmo tempo que em vão não haveria de ser sua escrita pois, em razão do atual momento, toda minha angústia nela se exprime. Em cada letra, cada palavra, cada minunciosa escolha de palavras que resulta na tradução de dores que um dia jamais cogitaria compartilhar. Então que seja de seu conhecimento minha dor. Já não bastam as noites das quais passei em claro cobiçando o doce desejo por tê-la? Já não bastam os mares que nadei em busca do reino perdido? Promessas e mais promessas. Estou farto de dores que persistem em reviver nos momentos de nostalgia de meu dia. Meu cérebro clama pelo desabamento de meu corpo. No fundo sei, sou o meu pior inimigo, e verdade seja dita, dessa batalha não me resta nada a não ser sucumbir aquilo que mais me destrói, aquilo que mais me repreende na vivência amarga do cotidiano simplório. Eu, em minha mais pura essência, sou a bomba relógio que está prestes a explodir, sou o caos que clama por existir, sou o tormento que não há de ir. Sou dor, apenas dor. Nessa última noite na terra vos digo: Desaba-te ó tormento interminável, a você te dou meu corpo e alma. Corpo e alma.

Armando Albuquerque

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