quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Tudo Termina em Café - Amostra - Capítulo 1

 Ainda em processo de finalização, segue aqui uma breve amostra referente ao capítulo 1 do livro "Tudo Termina em Café", boa leitura!

  Só lembro de acordar com um barulho ensurdecedor. O estrondo, responsável por atiçar a ressaca de uma noite de porre, me empurrou direto para fora de minhas cobertas de maneira quase abrupta. Pelas sentinelas entre abertas curiei em busca de respostas. Nada ao horizonte, nada a se saber. Cessei minha dúvida e de novo retornei à cama lentamente, mas não antes de tomar um copo d´agua e retirar o resto de álcool do meu corpo. De novo sob os lençóis, outro estrondo. Dessa vez me prontifiquei a pegar meu roupão e fazer caminho frente a porta de casa. Na rua, aquilo que já se esperava. A maldita garota na qual eu chamava de caos. De blusa listrada, saia curta e, talvez, calcinha de renda, aguardava ansiosamente por um convite de minha parte para dentro de casa. Eu, de roupão entre aberto, barba mal feita e só de cueca, cogitei em fechar a porta na sua cara e de novo voltar a dormir. Não consegui. Peguei-a pelo braço e coloquei junto a minha cama sem dar uma palavra. Tirei suas roupas como de costume e, bom... você sabe. Uma coisa leva à outra. Depois do ápice da fantasia voltei aos poucos para a realidade da coisa. Ela, já dormindo em cima de meu peito enrolada aos lençóis, parecia se sentir segura e confortável. Nada mais havia de se fazer. Acendi um cigarro mentolado e pensei “Puta merda, de novo não!”. Estaria eu de novo me rendendo a esse monstro mítico chamado paixão? Quer dizer... quem em pleno século 21 se apaixona? Seria isso um tipo de piada? Se realmente fosse, de mal gosto seria. Eu, na mais pura lucidez de minha racionalidade, não mais haveria de cometer tal erro. O amor, em sua mais pura essência, é apenas mais uma forma qualquer de suicídio. E mesmo que de meu desejo não seja por mais viver, eu jamais optaria por uma maneira tão dolorosa como essa pra acabar com minha insignificante existência. Haveria ainda de se passar inúmeras décadas até eu de novo me possibilitar a sonhar com um alguém que pudesse não só foder, mas também dividir os fones, os traumas e talvez uma paixão. Mas a beleza de esperar por algo distante é que a possibilidade de se tornar real é muito curta. E que se foda se for, estou bem sozinho mesmo. Longe de qualquer vestígio de responsabilidade e de qualquer quesito de decência que se é imposto dentro de uma relação. Não seriam os casais um bando de enclausurados? Difícil até dizer, mas mesmo que fossem acho que não teria qualquer dilema moral inserido nisso, até porque não são todos os seres humanos que frutem pelo desejo de liberdade. Alguns amam estar sob correntes, e não me refiro àquelas que se prendem na cabeceira da cama...

  13 da tarde, a garota acorda ainda sob meu corpo, olha em direção do quarto com os olhos entre abertos e aproxima a cabeça junto a minha com um leve sorriso. Seus lábios sempre trêmulos me atiçam o desejo por beijá-la, entretanto não poderia mais dar abertura a isso. Poderia ficar horas e horas afogando minha carência em seu mar de companhia, mas decidi por soltar o infeliz comentário “A que horas você vai?”. Rangendo seus dentes e respirando de maneira ofegante ela decide por sair da cama e juntar suas coisas. A calcinha, como havia palpitado antes de recebe-la em casa, era realmente de rena. Ao acaso não havia sido. Ela sabe que eu adoro isso e me provoca toda vez que aqui em casa pisa, mas agora eu haveria de resistir ao seu corpo violão que me tanto dá vontade de tocar. Triste fico em apenas saber que desse violão eu nunca consegui captar as cifras de sua canção pessoal. Em outras palavras gostaria de tê-la conhecido melhor, porém um risco teria sido tendo em vista a minha personalidade emotiva que tal hora dispara da jaula. Meu maior medo.

  Após vestir suas roupas e pegar sua bolsa, se aproximou de mim com uma expressão ao qual eu nunca havia visto em seu rosto. Com sua mão sempre leve coçou com afago minha barba e acariciou delicadamente meu rosto, olhou em meus olhos e sem nem hesitar “Paf!” Um tapa. “Que inusitado” - pensei. Nunca havia presenciado nada igual por sua parte ou sequer esperado tamanha reação. Por fim, ao virar de costas rumo a porta e antes que embora fosse soltou a frase “Espero que você encontre o que ache seu depressivo de merda”. Comecei rir aos montes e antes mesmo que ela fechasse a porta expeli meia dúzias de palavrões tendo ao certo que aquela seria a última das vezes que a veria em minha frente. Ao bater fortemente na porta, me vi de novo no ambiente ao qual me encontro no início de todas as manhãs de domingo. Pelado, desajustado de aparência e principalmente, sozinho. Como eu adoro!

  Terça feira, dia útil. Dois dias após esse episódio me deparo novamente com a dita sujeita na rua. Quer dizer, é impressionante como o universo conspira pra ferrar com qualquer resquício de paz existente em minha vida. De qualquer forma deixei a situação fluir e a resolvi o problema como qualquer outro adulto faz: ignorando. Sem hesitar, antes mesmo dela se aproximar, atravessei a rua como se nada houvesse acontecido. No meio da avenida não consigo me conter e começo a rir de sua cara sem o menor tipo de pudor, ela por sua vez vê como um sinal de deboche e aponta o dedo do meio em direção a mim enquanto repete a expressão que anteriormente havia feito em minha casa. Já eu, como belo cavalheiro que sou, decido por retribuir o gesto em dobro fazendo o sinal com as duas mãos e aprofundando mais ainda o tom de deboche. Decidida a entrar ainda mais na confusão, ela atravessa a rua e começa a vir em minha direção. Seria um pouco covarde da minha parte dizer que me apavorei, mas era realmente o que estava acontecendo. Ao chegar lentamente com a cabeça erguida e me enchendo de típicas palavras de qualquer boteco de bar, percebi que aquela era uma pessoa totalmente diferente ao qual eu estava acostumado a ver. Parecia ter se tornado mais cheia de si, mais empoderada. Olhei atentamente àqueles lábios que não mais deixavam a se permitir ficarem trêmulos enquanto, no calor do momento, ainda estava sendo xingado por eles. Ao perceber meu olhar atentador em direção a sua boca, ela de imediato cessa com os xingamentos e se cala criando de maneira bem espontânea um cenário de filme romântico daqueles bem ruins que você se segura pra não vomitar. Num instante, ao pairar na minha frente com seus fundos olhos cor castanhos e sua boca implorando por ser tocada, aproximamos quase que de maneira espontânea nossas cabeças uma das outras e nos beijamos entrelaçando nossas línguas uma na outra. Depois do gesto mais que inesperado, decido chamar um Uber e vamos rumo caminho a sua casa se amaçando por completo no banco traseiro do carro. Estávamos embriagados demais no momento para sequer observar a reação do motorista. Não importava, já estávamos chegando com ela tirando aos poucos minha camisa, e eu, como bom apreciador de uma leve transgressão, não a impedi. Ao chegar em sua casa começamos a tirar a roupa bem rápido sem que os beijos fossem um problema. Deitei-a bem forte na cama a transamos a noite toda da maneira mais selvagem possível. A melhor transa que havia tido com ela em todo esse tempo. Pela manhã, de maneira nada usual, acordei por último sem que ela estivesse na cama. Não levantei, ainda estava digerindo o que havia acontecido na noite passada. “Puta merda, de novo não!” – falei pra mim mesmo enquanto sentia em meu corpo seu perfume forte extremamente reconhecível. Ao colocar um dos pés no chão já cogitando a possibilidade de procurá-la em algum dos cômodos da casa, a porta lentamente se abre com ela vindo sob pontas de pé segurando uma bandeja média nas mãos. Com um sorriso aberto em seu semblante me proibiu de maneira incisiva de sair na cama e colocou sob minha barriga a bandeja de café da manhã que se prontificara em fazer minutos antes de eu acordar. Nela havia de tudo. De frutas cortadas com leite condensado até sanduíche recheado com baicon. Aquele café da manhã ia do saudável ao não saudável, mas isso não foi o ponto alto do cardápio. O café, mergulhado em leite, era o melhor café que eu já havia tomado em minha vida, e dele deixei por último afim de degustar até a última gota. Era confuso, minha vó sempre dizia “Desconfie sempre de quem faz um bom café” sem sequer dar explicações para essa frase. Ela não batia bem da cabeça mas era uma mulher que sabia das coisas. De qualquer forma ali estava eu, bebendo do café da garota que por meses eu havia renegado e que por vezes até humilhado, sem perceber ao certo que ao beber daquela xícara eu me permiti a viver o ato mais íntimo que tive com ela em meses.

  Dizem que o sexo une o melhor dos casais. Mentira! O que une um casal são as sutilezas do cotidiano e a forma de como delas hão de responder. Preparar um café da manhã junto às vezes é algo muito mais íntimo do que uma trepada na madrugada. E foi isso que fizemos no dia posterior logo após eu chamar ela pra dormir em minha casa. Não só preparar o café, mas também tomar banho juntos, assistir filmes juntos e por fim discutir o já esperado rótulo ao qual ela tanto fazia questão de se preocupar.

“O que somos?” – Perguntou

Fechei lentamente olhos, respirei profundamente e tentei pensar na resposta menos dolorosa possível que minha cabeça poderia dar.

“Somos o que sempre fomos, só que agora melhor”

Ela olhou pro canto pensativa sem saber se isso era uma resposta do seu agrado ou apenas uma tentativa minha de fugir da pergunta. Decidiu por tempo não se importar e voltou a assistir o filme comigo, só que dessa vez tomando nescau. Era engraçado a forma de como aqueles dois dias haviam se dado. Transamos que nem dois animais violentos na madrugada e ao amanhecer estávamos que nem duas crianças abraçadas no sofá tomando chocolate quente e vendo desenhos. Que relação louca. Nada comum, muito menos contemporânea. No braço do sofá peguei meu celular e apertei o botão off afim de ver as horas sem perceber da enxurrada de notificações que nele havia. Faziam dois dias que não pegava nele e a quantidade de mensagens só se acumulava. Ainda sentado no sofá, olhei em direção a sala e observei atentamente ao rosto dela escorado em meu ombro. Aquilo era bom demais pra ser verdade. Pela primeira vez na vida eu estava vivendo o momento sem sequer sentir a necessidade de ficar em droga de Instagram. Naquele momento vi que talvez houvesse a possibilidade desse negócio chamado relacionamento ter seus benefícios, principalmente se dele fizesse parte por quem agora estava ao meu lado.

  Não me leve a mal, não sou de ter opiniões fracas, só gosto de manter por perto pessoas que me fazem esquecer da existência do celular às vezes. Me custa ter que viver num mundo recheado de relações tão líquidas e sensações tão superficiais. Encontrar um alguém que não compactue com tais ideais é uma loteria, e eu meus caros, aos poucos caminhava para ganhar esse prêmio tão cobiçado chamado felicidade, sem perceber que mais uma vez estava me despindo de minha armadura que há tanto me custou tempo de construir. Fico assim, desgostoso da vida toda vez que saio desse estado de bloqueio emocional que tanto me prontifiquei a estar. Tudo, por mais bonito que previamente seja, é finalizado sempre em tragédia. Quem nunca terminou um relacionamento que jurava ser o da sua vida? Quem nunca perdeu um bichinho de estimação sem que houvesse um vazio de solidão? Somos todos seres medíocres vivendo em função de evitar nossas dores, quando, na mais pura ingenuidade, não percebemos que dela é impossível fugir. É por isso que desde que comecei a viver, aprendi que a solidão é minha melhor companheira, e dela não haveria nada do que se abdicar. Entretanto, e eu sempre odeio os “entretantos”, vez ou outra surgem essas pedras no caminho que tentam desestabilizar todo o nosso forte que protege nossas emoções do mundo real. Um completo desrespeito à solidão alheia. Restava agora saber se o indivíduo que estava do meu lado era uma pedra ou eu seria capaz o suficiente para chutá-la para fora do caminho quando ela adentrasse rumo ao meio. Difícil dizer, já estava consumado de emoções que verdadeiramente não eram minhas. Não me reconhecia mais. Sem nem perceber no outro dia já estava fazendo café pra ela e entregando na cama como há dias anteriores ela havia feito por mim. Que droga, estou apaixonado! Existe algum remédio pra isso? 

                                               Armando Albuquerque


É com esse início que perpassa a proposta do livro. Um diálogo forte com as relações cada vez mais raras de amor no século 21, a liquidez presente nos dias atuais e a constante fuga dos indivíduos frente a tais intermédios. O projeto, ainda sem data, pouco a pouco se desenvolve cada vez mais intencionada a instigar uma reflexão de suma importância nos tempos presentes. 


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Mecânica Celeste Aplicada

Dos astros é possível ver

O reflexo claro de suas emoções

Segmentadas na mais imperfeita formação

De um corpo celestial

 

Das asas rumo ao sol

Se abre teu peito em liberdade

Frente à imensidão

Do vazio espaço sideral

 

Brilha a estrela morta

Que por fim junto à suas lástimas

Volta a se apagar

Na incompletude clara de uma constelação

 

Mecânica celeste aplicada

Todo brilho se apaga

Toda estrela um dia cai

 

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Armando Albuquerque

@armandoversos

Despedida

 me joga nas consequências

dos meus fartos erros

de uma noite qualquer

 

me expulsa de tua casa

que aos poucos

eu bem adentrava

 

destila teu maço

simplórios maços

de um cigarro torto e com batom

 

no fim seremos os mesmos;

uma eterna possibilidade

numa recém despedida

 

adeus?


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Armando Albuquerque

@armandoversos

Gramado das Aflições

   Do ponto da colina era possível enxergar o verde da grama. Tal hora amarelada, tal hora contínua. Pastosa, como qualquer manada de bovinos um dia merece ter. Os bovinos, por sua vez, se alimentavam da mais pura irracionalidade e selvageria que só essa raça é capaz de reproduzir. Ao som de músicas toscas e da arraigada necessidade de reprodução, o sol se punha na mais repleta amargura de um sábado qualquer de verão. Celeiro humano. Sem nenhum curral, sem nenhum estábulo. Me dói a alma saber que um dia me permiti a fazer parte daquela maldita manada. Talvez ao dispor de se tornar mais um qualquer, que vaga por aí em busca do ilícito prazer que só a mais pura das eloquência juvenis consegue prover. Talvez, mas só no fundo talvez, por ser mais um deles. A aflição nos aguarda.

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Armando Albuquerque

@armandoversos

Meu Guarda-Chuva Furado

  Eu poderia colocar o guarda-chuva embaixo de você ou te proteger do passar dos carros pelas poças de água na calçada, mas será...