Ainda em processo de finalização, segue aqui uma breve amostra referente ao capítulo 1 do livro "Tudo Termina em Café", boa leitura!
Só lembro de acordar com um barulho
ensurdecedor. O estrondo, responsável por atiçar a ressaca de uma noite de
porre, me empurrou direto para fora de minhas cobertas de maneira quase
abrupta. Pelas sentinelas entre abertas curiei em busca de respostas. Nada ao
horizonte, nada a se saber. Cessei minha dúvida e de novo retornei à cama
lentamente, mas não antes de tomar um copo d´agua e retirar o resto de álcool
do meu corpo. De novo sob os lençóis, outro estrondo. Dessa vez me prontifiquei
a pegar meu roupão e fazer caminho frente a porta de casa. Na rua, aquilo que
já se esperava. A maldita garota na qual eu chamava de caos. De blusa listrada,
saia curta e, talvez, calcinha de renda, aguardava ansiosamente por um convite
de minha parte para dentro de casa. Eu, de roupão entre aberto, barba mal feita
e só de cueca, cogitei em fechar a porta na sua cara e de novo voltar a dormir.
Não consegui. Peguei-a pelo braço e coloquei junto a minha cama sem dar uma
palavra. Tirei suas roupas como de costume e, bom... você sabe. Uma coisa leva
à outra. Depois do ápice da fantasia voltei aos poucos para a realidade da
coisa. Ela, já dormindo em cima de meu peito enrolada aos lençóis, parecia se
sentir segura e confortável. Nada mais havia de se fazer. Acendi um cigarro
mentolado e pensei “Puta merda, de novo não!”. Estaria eu de novo me rendendo a
esse monstro mítico chamado paixão? Quer dizer... quem em pleno século 21 se
apaixona? Seria isso um tipo de piada? Se realmente fosse, de mal gosto seria.
Eu, na mais pura lucidez de minha racionalidade, não mais haveria de cometer
tal erro. O amor, em sua mais pura essência, é apenas mais uma forma qualquer
de suicídio. E mesmo que de meu desejo não seja por mais viver, eu jamais
optaria por uma maneira tão dolorosa como essa pra acabar com minha
insignificante existência. Haveria ainda de se passar inúmeras décadas até eu
de novo me possibilitar a sonhar com um alguém que pudesse não só foder, mas
também dividir os fones, os traumas e talvez uma paixão. Mas a beleza de
esperar por algo distante é que a possibilidade de se tornar real é muito curta.
E que se foda se for, estou bem sozinho mesmo. Longe de qualquer vestígio de
responsabilidade e de qualquer quesito de decência que se é imposto dentro de
uma relação. Não seriam os casais um bando de enclausurados? Difícil até dizer,
mas mesmo que fossem acho que não teria qualquer dilema moral inserido nisso,
até porque não são todos os seres humanos que frutem pelo desejo de liberdade.
Alguns amam estar sob correntes, e não me refiro àquelas que se prendem na
cabeceira da cama...
13 da tarde, a garota acorda ainda sob meu
corpo, olha em direção do quarto com os olhos entre abertos e aproxima a cabeça
junto a minha com um leve sorriso. Seus lábios sempre trêmulos me atiçam o
desejo por beijá-la, entretanto não poderia mais dar abertura a isso. Poderia
ficar horas e horas afogando minha carência em seu mar de companhia, mas decidi
por soltar o infeliz comentário “A que horas você vai?”. Rangendo seus dentes e
respirando de maneira ofegante ela decide por sair da cama e juntar suas
coisas. A calcinha, como havia palpitado antes de recebe-la em casa, era
realmente de rena. Ao acaso não havia sido. Ela sabe que eu adoro isso e me
provoca toda vez que aqui em casa pisa, mas agora eu haveria de resistir ao seu
corpo violão que me tanto dá vontade de tocar. Triste fico em apenas saber que
desse violão eu nunca consegui captar as cifras de sua canção pessoal. Em
outras palavras gostaria de tê-la conhecido melhor, porém um risco teria sido
tendo em vista a minha personalidade emotiva que tal hora dispara da jaula. Meu
maior medo.
Após vestir suas roupas e pegar sua bolsa, se
aproximou de mim com uma expressão ao qual eu nunca havia visto em seu rosto.
Com sua mão sempre leve coçou com afago minha barba e acariciou delicadamente
meu rosto, olhou em meus olhos e sem nem hesitar “Paf!” Um tapa. “Que
inusitado” - pensei. Nunca havia presenciado nada igual por sua parte ou sequer
esperado tamanha reação. Por fim, ao virar de costas rumo a porta e antes que
embora fosse soltou a frase “Espero que você encontre o que ache seu depressivo
de merda”. Comecei rir aos montes e antes mesmo que ela fechasse a porta expeli
meia dúzias de palavrões tendo ao certo que aquela seria a última das vezes que
a veria em minha frente. Ao bater fortemente na porta, me vi de novo no
ambiente ao qual me encontro no início de todas as manhãs de domingo. Pelado,
desajustado de aparência e principalmente, sozinho. Como eu adoro!
Terça feira, dia útil. Dois dias após esse
episódio me deparo novamente com a dita sujeita na rua. Quer dizer, é
impressionante como o universo conspira pra ferrar com qualquer resquício de
paz existente em minha vida. De qualquer forma deixei a situação fluir e a
resolvi o problema como qualquer outro adulto faz: ignorando. Sem hesitar,
antes mesmo dela se aproximar, atravessei a rua como se nada houvesse
acontecido. No meio da avenida não consigo me conter e começo a rir de sua cara
sem o menor tipo de pudor, ela por sua vez vê como um sinal de deboche e aponta
o dedo do meio em direção a mim enquanto repete a expressão que anteriormente
havia feito em minha casa. Já eu, como belo cavalheiro que sou, decido por
retribuir o gesto em dobro fazendo o sinal com as duas mãos e aprofundando mais
ainda o tom de deboche. Decidida a entrar ainda mais na confusão, ela atravessa
a rua e começa a vir em minha direção. Seria um pouco covarde da minha parte
dizer que me apavorei, mas era realmente o que estava acontecendo. Ao chegar
lentamente com a cabeça erguida e me enchendo de típicas palavras de qualquer
boteco de bar, percebi que aquela era uma pessoa totalmente diferente ao qual
eu estava acostumado a ver. Parecia ter se tornado mais cheia de si, mais
empoderada. Olhei atentamente àqueles lábios que não mais deixavam a se
permitir ficarem trêmulos enquanto, no calor do momento, ainda estava sendo
xingado por eles. Ao perceber meu olhar atentador em direção a sua boca, ela de
imediato cessa com os xingamentos e se cala criando de maneira bem espontânea
um cenário de filme romântico daqueles bem ruins que você se segura pra não
vomitar. Num instante, ao pairar na minha frente com seus fundos olhos cor
castanhos e sua boca implorando por ser tocada, aproximamos quase que de
maneira espontânea nossas cabeças uma das outras e nos beijamos entrelaçando
nossas línguas uma na outra. Depois do gesto mais que inesperado, decido chamar
um Uber e vamos rumo caminho a sua casa se amaçando por completo no banco
traseiro do carro. Estávamos embriagados demais no momento para sequer observar
a reação do motorista. Não importava, já estávamos chegando com ela tirando aos
poucos minha camisa, e eu, como bom apreciador de uma leve transgressão, não a
impedi. Ao chegar em sua casa começamos a tirar a roupa bem rápido sem que os
beijos fossem um problema. Deitei-a bem forte na cama a transamos a noite toda
da maneira mais selvagem possível. A melhor transa que havia tido com ela em
todo esse tempo. Pela manhã, de maneira nada usual, acordei por último sem que
ela estivesse na cama. Não levantei, ainda estava digerindo o que havia
acontecido na noite passada. “Puta merda, de novo não!” – falei pra mim mesmo
enquanto sentia em meu corpo seu perfume forte extremamente reconhecível. Ao
colocar um dos pés no chão já cogitando a possibilidade de procurá-la em algum
dos cômodos da casa, a porta lentamente se abre com ela vindo sob pontas de pé segurando
uma bandeja média nas mãos. Com um sorriso aberto em seu semblante me proibiu
de maneira incisiva de sair na cama e colocou sob minha barriga a bandeja de
café da manhã que se prontificara em fazer minutos antes de eu acordar. Nela
havia de tudo. De frutas cortadas com leite condensado até sanduíche recheado
com baicon. Aquele café da manhã ia do saudável ao não saudável, mas isso não
foi o ponto alto do cardápio. O café, mergulhado em leite, era o melhor café
que eu já havia tomado em minha vida, e dele deixei por último afim de degustar
até a última gota. Era confuso, minha vó sempre dizia “Desconfie sempre de quem
faz um bom café” sem sequer dar explicações para essa frase. Ela não batia bem
da cabeça mas era uma mulher que sabia das coisas. De qualquer forma ali estava
eu, bebendo do café da garota que por meses eu havia renegado e que por vezes
até humilhado, sem perceber ao certo que ao beber daquela xícara eu me permiti
a viver o ato mais íntimo que tive com ela em meses.
Dizem que o sexo une o melhor dos casais.
Mentira! O que une um casal são as sutilezas do cotidiano e a forma de como
delas hão de responder. Preparar um café da manhã junto às vezes é algo muito
mais íntimo do que uma trepada na madrugada. E foi isso que fizemos no dia
posterior logo após eu chamar ela pra dormir em minha casa. Não só preparar o
café, mas também tomar banho juntos, assistir filmes juntos e por fim discutir o
já esperado rótulo ao qual ela tanto fazia questão de se preocupar.
“O que
somos?” – Perguntou
Fechei
lentamente olhos, respirei profundamente e tentei pensar na resposta menos
dolorosa possível que minha cabeça poderia dar.
“Somos o que
sempre fomos, só que agora melhor”
Ela olhou
pro canto pensativa sem saber se isso era uma resposta do seu agrado ou apenas
uma tentativa minha de fugir da pergunta. Decidiu por tempo não se importar e
voltou a assistir o filme comigo, só que dessa vez tomando nescau. Era
engraçado a forma de como aqueles dois dias haviam se dado. Transamos que nem
dois animais violentos na madrugada e ao amanhecer estávamos que nem duas
crianças abraçadas no sofá tomando chocolate quente e vendo desenhos. Que
relação louca. Nada comum, muito menos contemporânea. No braço do sofá peguei
meu celular e apertei o botão off afim de ver as horas sem perceber da
enxurrada de notificações que nele havia. Faziam dois dias que não pegava nele e
a quantidade de mensagens só se acumulava. Ainda sentado no sofá, olhei em
direção a sala e observei atentamente ao rosto dela escorado em meu ombro.
Aquilo era bom demais pra ser verdade. Pela primeira vez na vida eu estava
vivendo o momento sem sequer sentir a necessidade de ficar em droga de
Instagram. Naquele momento vi que talvez houvesse a possibilidade desse negócio
chamado relacionamento ter seus benefícios, principalmente se dele fizesse
parte por quem agora estava ao meu lado.
Não me leve a mal, não sou de ter opiniões
fracas, só gosto de manter por perto pessoas que me fazem esquecer da
existência do celular às vezes. Me custa ter que viver num mundo recheado de
relações tão líquidas e sensações tão superficiais. Encontrar um alguém que não
compactue com tais ideais é uma loteria, e eu meus caros, aos poucos caminhava
para ganhar esse prêmio tão cobiçado chamado felicidade, sem perceber que mais
uma vez estava me despindo de minha armadura que há tanto me custou tempo de
construir. Fico assim, desgostoso da vida toda vez que saio desse estado de
bloqueio emocional que tanto me prontifiquei a estar. Tudo, por mais bonito que
previamente seja, é finalizado sempre em tragédia. Quem nunca terminou um
relacionamento que jurava ser o da sua vida? Quem nunca perdeu um bichinho de
estimação sem que houvesse um vazio de solidão? Somos todos seres medíocres
vivendo em função de evitar nossas dores, quando, na mais pura ingenuidade, não
percebemos que dela é impossível fugir. É por isso que desde que comecei a
viver, aprendi que a solidão é minha melhor companheira, e dela não haveria
nada do que se abdicar. Entretanto, e eu sempre odeio os “entretantos”, vez ou
outra surgem essas pedras no caminho que tentam desestabilizar todo o nosso
forte que protege nossas emoções do mundo real. Um completo desrespeito à
solidão alheia. Restava agora saber se o indivíduo que estava do meu lado era
uma pedra ou eu seria capaz o suficiente para chutá-la para fora do caminho
quando ela adentrasse rumo ao meio. Difícil dizer, já estava consumado de
emoções que verdadeiramente não eram minhas. Não me reconhecia mais. Sem nem
perceber no outro dia já estava fazendo café pra ela e entregando na cama como
há dias anteriores ela havia feito por mim. Que droga, estou apaixonado! Existe
algum remédio pra isso?
Armando Albuquerque
É com esse início que perpassa a proposta do livro. Um diálogo forte com as relações cada vez mais raras de amor no século 21, a liquidez presente nos dias atuais e a constante fuga dos indivíduos frente a tais intermédios. O projeto, ainda sem data, pouco a pouco se desenvolve cada vez mais intencionada a instigar uma reflexão de suma importância nos tempos presentes.
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Paf!” Um tapa. “Que inusitado” me sinti em um filme, obrigada por sua escritura tão maravilhosa,
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