Teu sorriso na varanda soa um pouco distante daquele choro de ontem à noite em nosso quarto. A linha entre a comédia e o drama parece um pouco tênue pra gente, querida. Às vezes um lenço no rosto, às vezes um vaso quebrado na parede. É mesmo difícil decifrar nós dois. Seja pelo andar a longos passos na rua ou o se jogar rumo a primeira campanhia de qualquer casa. Era bonito quando tocávamos o nosso ding dong e saíamos correndo feito crianças pela calçada. "Corre que o vizinho vai abrir" Já chegamos e cá estamos de novo disputando uma vaga no único banheiro da casa. Eu sei que demoro às vezes quando entro, mas é porque não quero que você fique me xingando muito por eu ter deixado a margarina fora da geladeira ou esquecido de lavar a louça. Eu prometo que não vai se repetir apesar de nós dois sabermos que sim. Às vezes parece implicância, e é mesmo. Eu nunca escondi que você estava ao lado de uma criança, já você finge o tempo todo ser adulta. Só queria que soubesse que eu te ouço do outro lado da porta chorando por aquele filme do cachorrinho que espera o dono na estação de trem. No fundo você também sabe que não é gente grande, e talvez se sentisse mais a vontade se soubesse que eu sei que seu coração é de vidro e frágil como o lustre da minha mãe era quando caiu depois de eu ter chutado minha bola de futebol nele quando pequeno. Fiquei de castigo por duas semanas, só não entendo o porquê de hoje eu ainda ser punido sem ao menos ter despedaçado nada. Quer dizer, esse negócio de sentimento conta pra você?
Armando Albuquerque
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