domingo, 15 de maio de 2022

O Bêbado do Quarto ao Lado

 

  Era verão de um ano qualquer. As tardes eram ensolaradas e a rua repleta daquilo que só a noite conseguia seifar. Não me lembro ao certo em que momento da escuridão o monstro pairou sobre meu corpo ou meus pensamentos, mas aquilo que rotineiramente consumia meu dia parecia não ter surtido o efeito esperado em meu subconsciente. Foi a primeira vez que ele chegou bêbado... Uma criança deveria dormir na cama e não debaixo dela. Sem saber o que fazer ou ao certo aonde ir, continuei estático sob aquele bunker improvisado imaginando o que haveria de acontecer aos demais da casa. Ingenuidade minha pensar que poderia enfrentar um alguém três vezes maior que meu tamanho, ao mesmo tempo que imensa era a dor de ter que me manter inerte frente ao caos que pairava na casa. "Paf, paf, paf!" O que houve? - Questionei. Era óbvio que aos meus 5 jamais poderia saber o que houvera. Lembro-me ainda da légua de palavras proferidas com um tom tão violento que só a presença da real ameaça física poderia me fazer acreditar que haveria superioridade em sua dor. "Palavras machucam mais que atos", ao menos pensava eu até o portão da degradação ser aberto para mim naquela noite. Um caminho que jamais consegui voltar...

 Armando Albuquerque

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